Para intular este meu ensaio, emprestei de Boris Schnaiderman o título do seu livro recém-lançado. "Tradução, ato desmedido" sintetiza e expressa tudo o que a tradução da obra Cecilia Valdés representou para mim, nas muitas e muitas horas, dessa minha curta vida, dedicadas a esse trabalho.

Contrariando conselhos, desprezando sugestões para trocar a empreitada por obra de menor tamanho e de menor complexidade, meti-me numa aventura que me proporcionou prazer crescente. À medida em que eu revelava a vida dos personagens e a história do país em que a trama se desenvolve, sentia-me um alvissareiro, com o poder de quem faz revelações.

Confesso que gostaria de ter tido, no meu trabalho de tradução, o mesmo rigor que Schnaiderman, tradutor russo, tem com os seus. A ele definitivamente não se encaixa o epíteto tradutor/traidor. Além desse desvelo que não tive, também não consigo ter a insistente modéstia que tanto o incomoda.

Contudo, igualo-me a ele quanto ao fato de considerar que traduzir é experimentar alegrias; raras, já que é o sofrimento que se destaca no exercício dessa função. Enquanto ele reclama de má remuneração, eu luto para evitar prejuízos.

Sobre a ousadia para enfrentar as dificuldades do trabalho do tradutor e encarar os riscos de fracasso, eu o supero! Se as alternativas que se impõe a um tradutor são ousar ou morrer, decidi não morrer. E me lancei. Ao prazer e a dor.

Inicialmente o prazer da tradução propriamente dita, depois vieram outros. Na revisão, reconhecer os acertos e aos poucos ver dissipado o temor de grandes erros. Prazer de querer o texto cada vez melhor; a paradoxal vontade de nunca concluir o trabalho, almejando perfeição, escrevendo como quem o faz para ser lido até o fim dos tempos. Prazer lúdico com a escolha das fotos a serem utilizadas, prazer de ver terminada a dor do Dani que demorou a encontrar uma solução para a capa.

E veio a dor de entregar os originais à Vereda Editora como quem entrega o filho ao mundo e não pode mais ajudá-lo, deixando-o livre para o sucesso ou o fracasso.

Senhores, essa trajetória com a tradução de Cecilia Valdés continua me rendendo experiências que jamais pensei viver. Ganhei de início uma filha, uma companheira, uma cúmplice. Agora vivo a levar a cria, orgulhoso, de bar em bar, exibindo-a, vendendo-a. Tenho, é certo, as preocupações de pai, de marido ciumento, sofrendo a alegria de vê-la ganhar o mundo, cismando como a avaliam. Tudo a distância, sabendo que “traduzir é servir a dois senhores”: o interesse do leitor e a fidelidade ao autor. A minha Cecilia pertence a eles.

Como um coajuvante no palco, sem me incomodar, permito que sejam do autor os louros do aplauso dos leitores. Escondido atrás da cortina, vou curtindo minha vaidade, nesse ato desmedido que não tem mais fim.


(Augusto Rodrigues Borges)Ensaio TRADUÇÃO, ATO DESMEDIDO por Augusto Rodrigues Borges