Espiritualidade. Mensagens de Jeremias Horta completam 21 anos e ganham nova e sofisticada edição.O homem que se encontrou.Wolber Alvarenga mergulha livremente dentro do seu ser e resgata a genuína sabedoria que transforma em mensagens

Ele nasceu em Itabira há 72 anos. Como psicoterapeuta, passou anos escutando seus pacientes. Como ser humano, não economizou tempo em se escutar, em se lançar rumo ao desconhecido de si para se descobrir. O resultado dessa imersão profunda e sem censura está nas mensagens delicadas e tocantes de “Bola de Neve – 108 Mensagens” que completa 21 anos e chega à 6ª edição, nas “XXII Mensagens de Jeremias” e “O Caminho do Meio”. Essas três publicações são assinadas por Jeremias Horta, o ser que habita o mais profundo de Wolber Alvarenga. Codinome, nome, pseudônimo, não importa. Criador e criatura se inter-relacionam, dialogam, são cúmplices.
Wolber lançou ainda “Bola de Meia” e “Bola de Gude”. Acaba de sair do forno “Vi Ver Vi Vendo” (Vereda Editora) e encontra-se em fase de revisão “Vi Ver Vi Vendo 2” que deve sair ainda neste ano como livros de poesias.
O meu primeiro encontro com Wolber Alvarenga foi há dez anos. Ele era avesso a entrevistas, mas me convidou para uma conversa, em seu consultório. Nosso segundo encontro segue abaixo, mas foi muito difícil cortar a prosa, a mensagem. Com vocês, Wolber Alvarenga e Jeremias Horta, dois nomes, uma só essência.Relacionamentos
As coisas estão mudando rapidamente e a nossa direção tem que ficar mais clara porque senão entramos no redemoinho. Há uma grande inconsciência das pessoas quanto ao sentido da vida, (aliás, isso tem acontecido desde sempre). As pessoas estão perdidas, sem sintonia com o que são, pensam e querem. Há uma desorientação do ser humano que está muito preso (como sempre foi, talvez) ao externo. As pessoas não têm referencial interno e isso é difícil, porque temos que fazer escolha entre vida e morte a cada minuto. E não sabemos direito o que é vida e morte.

Futuro
Será que vamos conseguir um mundo mais humano? Somos capazes de destruir o mundo em dois minutos, mas eu não sei como vai ser o futuro do meu neto daqui a dez anos. O homem sempre foi muito abandonado. Somos treinados para ver o mundo como observadores, mas não usamos o nosso intelecto para nos compreender e para responder as perguntas básicas existenciais: quem sou, de onde venho e para onde vou. O foco está sempre no externo e são raras as pessoas que entram em contato com o seu eu interior, que têm a sensação de si mesmas. Devemos começar a ouvir nossa voz interior, a compreender o processo experiencial, a maneira como se está vivendo, se sentindo. Isso é consciência do meu ser.

Inversão
Fomos encorajados a ter o referencial externo e pouca atenção foi dada ao nosso referencial interno. Focamos nas nossas metas e um minuto depois aparece outra. Precisamos aprender a viver e compreender o processo, mas buscamos compulsivamente por resultados. Guimarães Rosa fala disso de maneira muito bonita: "O real das coisas não está na saída e nem na chegada. Ele se dispõe pra gente no meio da travessia". Onde há velocidade, não há profundidade.

Caminho
Precisamos nos aprofundar para termos consistência, direção e integridade para amar, pois, quando nos aprofundamos em nós mesmos, nos fortificamos e podemos amar. A pessoa fraca não ama a vida, não tem cuidado e nem respeita a vida, a si mesmo, ao próximo e à natureza. A postura do homem não prioriza o ser humano, mas as metas, as conquistas, o poder. O ser é muito esquecido. A sociedade nos quer meio mortos, não mortos o suficiente para não produzirmos e nem vivos o suficiente para criarmos, porque na hora em que começarmos a nos ouvir nos tornamos mais criativos e as pessoas perdem o poder e o controle sobre nós.

Processo de criação
Através de um contato íntimo e profundo consigo mesmo, você chega à verdades que são às vezes universais e eternas. Quando eu crio, acho que estou entrando em um contato mais íntimo comigo mesmo, estou falando de algo meu e sei que muitas pessoas se reconhecem em minha intimidade. Por fora, somos um padrão convencional, estereotipado, controlado, condicionado, mas, quando entro na minha intimidade, eu me torno muito diferente desse eu que estou acostumado, me torno criativo, sou um eu renovado e nesse novo tem muita coisa de muito velho. Somos muito semelhantes nas aparências e talvez também na nossa intimidade. Se a maioria das pessoas conseguisse ter maior intimidade consigo mesmas, elas veriam o outro como algo semelhante, e não separado.

Jeremias Horta
Faço o que talvez as pessoas, de um modo geral, não fazem, que é se ouvir. Eu coloco para fora aquilo que eu ouvi de mim. O que é Jeremias? Estou querendo entender de onde ele vem. Pode ser que eu seja um canal, um médium, uma pessoa mais capaz de entrar em minha intimidade ou quem sabe ela é semelhante a dos espíritos que estão no espaço. Não sei.

Mensagens
É como uma poesia, eu não sei o que vai surgir. Não importa de onde ela venha, se é meu, se vem de outros espíritos, o que importa é se ela está sendo útil para um grande número de pessoas. Ela vem de Deus e do amor. A obra de arte não nos pertence. Jeremias Horta pode ser um eremita rosa. Rosa é o sobrenome da minha mulher e eu sou um eremita.

Religião
Todas, uma só para mim é pouco. Bebo água de todos os rios. Se você se dispuser a entrar nela com o coração aberto, disponível, se entregando, vai descobrir verdades que são eternas. A religião pode facilitar ou dificultar o encontro do homem com ele mesmo e, portanto, com Deus. Porque, na hora em que chego perto de mim, no mais íntimo do meu ser, chego na essência divina.

Deus
É vida. Eu não sabia o que era Deus, se eu souber amar, respeitar a minha vida e de qualquer ser vivo, estou amando a Deus. Nós estamos sendo impedidos de ter um contato íntimo com nós mesmos. Minha intimidade não tem limites, eu posso encontrar até Deus nela.

Ação e reação
Se eu te trato como uma pessoa diferente de mim, eu posso te matar, mas se eu consigo ter a visão do todo, sabendo que você faz parte de mim, te matar é matar uma parte do meu corpo, te destruir, te manipular, é manipular uma parte do meu ser, te escravizar é escravizar uma parte do meu ser. O homem começou a ver as coisas "eu cá e o resto lá", ele precisa evoluir na direção de uma integração com o universo. Homem algum é uma ilha.

Missão
Você acha que eu sou Deus?

Reencarnação
Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. Para mim, ninguém nasce e nem morre. Morte é criação da sociedade. Nascimento é a descrição de um ser na hora em que ele aparece entre nós, e morte é quando ele deixa de viver aparentemente entre nós. Nesse sentido, quem nasce e morre é o ser social, mas eu sou muito mais que meu eu social. Quem sabe eu sou eterno? E, se sou eterno, como ficaria isso? Não sei. O que eu sinto é que o sentido da vida é crescer, é aprimorar, é eu me modificar para melhor como ser humano. Gosto de crescer. Esse é o sentido da minha vida e de muitas pessoas que eu amo e conheço.MorteSeria muita pretensão minha dizer que não tenho medo da morte. Ela é um momento de transição que todos vamos ter que viver. Hoje, aos 72 anos, posso dizer que realizei tudo o que eu queria e podia realizar, cumpri a missão à qual me propus, cresci como ser humano, me desenvolvi espiritualmente. Vejo a morte como um desabrochar, uma continuação natural da vida e chego a ter curiosidade de como seria morrer. De uma coisa eu sei, meu ego não morre. Esse Wolber Alvarenga morre e aparece outro ser que eu já conheço, já estou acostumado a ele, que é o ser não social, muito maior, universal.