VEREDA: Vi ver vi vendo é um título de livro com fortes propensões herméticas, você poderia clarificá-lo para os leitores?

WOLBER: Gostaria de esclarecer que este título não surgiu primeiro como um título somente.É um poema meu, antigo, que julguei retratar, de forma concreta e simples, não só meu processo de viver como também o conteúdo do livro que é fruto desse mesmo processo. Além disso, acho que o título dá margem a diversas leituras e interpretações que podem surgir de duas maneiras básicas: a primeira de um olhar despretensioso no contacto do indivíduo com o título do livro; a segunda advinda da leitura do próprio livro. Assim sendo, a compreensão do título e de seu significado virá a partir destes dois processos de acordo com a experiência e reflexões de cada um.

VEREDA: À primeira vista, seu título nos remeteu à famosa frase do general e cônsul romano Júlio César, em mensagem ao Senado Romano sobre a vitória da batalha em Zela: "Vim, vi venci". Para o general, o comunicado revelava, ao mesmo tempo, orgulho do feito e alerta ao Senado a respeito de seu poderio militar. O que revela sua mensagem no livro e a quem foi dirigida?

WOLBER: Ele era guerreiro, gostava e precisava vencer. Buscava, é claro, o poder. Era esse seu mister. Já este pobre escriba acredita que viver é melhor do que vencer. A minha mensagem no livro são descrições dos diversos processos do viver. Foram textos escritos com o intuito apenas de compreender a mim mesmo em níveis mais profundos, ajudar meus clientes e alunos a se aprofundarem mais em seu processo experiencial, e, quem sabe, um dia, tornar esses textos disponíveis para um número maior de pessoas. Não os escrevi primeiramente com o intuito de publicá-los, nunca tive muito ânimo para isso; antes de tudo eles partiram de uma necessidade, de um forte desejo de dividir minha intimidade com alguém, de me "contactuar" em níveis mais profundos com as pessoas. Essa sempre foi minha busca primeira. Mas, como sempre acontece, meus amigos acabam tornando estes escritos públicos, o que muito me alegra. Me alegra porque com isso eu posso atingir um número maior de pessoas com as quais não teria condições de me relacionar e ter uma realização maior, contribuindo um pouco na vida delas. Sou grato a eles por isso. Em suma, as mensagens representam um desejo de viver e de contribuir para a vida de meus semelhantes.

VEREDA: Esse livro é assinado com o próprio nome, em vez de pseudônimo ou heterônimo, como no outro de sua autoria. Há pluralidade e diversidade tais do autor que o levem a dizer, com Rimbaud, que "eu é o outro" e, assim, qualquer autoria é múltipla de nome e, portanto, de identidades do autor?

WOLBER: É mais ou menos isso. Não acredito que o que eu escrevo venha de uma entidade estática dentro mim, meu "eu interior", mas sim de uma relação minha com as pessoas e com o mundo. Como escrevi certa vez: "quando você escreve alguma coisa boa para as pessoas, não importa de onde ela vem, vem de Deus, vem do amor, e pronto. Acredito que uma obra de arte nunca pertence a uma entidade a uma pessoa, ela é uma expressão íntima, honesta e criativa. Da vida...e porque não dizer de Deus?

VEREDA: Seu livro é de reflexões do psicólogo que é e do filósofo que não deixa de ser. Por ele ser de reflexões, prevaleceria o argumento filosófico sobre o psicológico. Assim sendo, a famosa frase de Pascal fica no livro invertida para "A razão tem razões que o próprio coração desconhece"?

WOLBER:: Meio complicado isso de separar a razão do coração, o coração da razão. Os dois andam juntos, de mãos dadas, e muitas vezes apontando direções diferentes, embora os dois tenham bastante razão para isso. A razão de um não tira a razão do outro, questão perspectiva ou referencial. O sábio usa a razão para lidar com as coisas do coração e o coração para lidar com as coisas da razão, assim eles se complementam. Um corrige a rota apontada pelo outro. Na dúvida entre um e outro eu prefiro a seta apontada pelo coração.