Vereda: No livro “Por que ler os clássicos?”, Ítalo Calvino dá 14 razões para se ler um clássico, quais os motivos que levaram você a traduzir o “Cecilia Valdés”?

Augusto: Parafraseando Calvino, iniciarei minha resposta, como ele iniciou o referido livro : "Ler clássicos é melhor do que não os ler". E, ao escolher um clássico cubano para traduzir, julgo poder proporcionar ao leitor da Língua Portuguesa o deleite de passear pela Havana de 200 anos atrás, tendo por companhia uma mulher muito formosa. Nosso leitor poderá, ainda, observar toda a beleza da geografia de Vuela Abajo; além de escutar os tiros de canhão anunciando a abertura das portas das muralhas, compreender a lógica de um governo colonial, vivenciar a inauguração do primeiro engenho de cana-de-açúcar movido a vapor, assistir ao horror de uma viagem em um navio negreiro, fazer compras no mercado da Plaza Vieja com Dionisio. Ou, simplesmente, encostado em uma de colunas desse mercado, na companhia de Maria de Regla, admirar seu movimento. E desafortunadamente assistir a um açoite de escravos num engenho. Enfim, quero levar o leitor a conhecer narrativa pormenorizada e precisa de Cirilo Villaverde.

Vereda: Essa motivação inclui algo especial de que natureza?

Augusto: Sim, há uma motivação muito especial. Não se pode tratar de Cuba sem se tomar uma posição ideológica. Traduzir Cecilia foi a forma que encontrei de me posicionar contra o hediondo bloqueio econômico e cultural que parte expressiva do mundo estabeleceu, há quase 50 anos, contra a Ilha. Essa tradução é um meio de fomentar uma discussão sobre um regime. Compreender as vantagens desse regime para a população cubana em contraposição à forma cristalizada sobre ele, divulgada pelos meios de comunicação que direcionam o pensar de grande parte da população brasileira. Além disso, é também uma forma de provocar nas pessoas o desejo de visitar Cuba e de por ela se encantar.

Vereda: Por que um engenheiro sem experiência literária (tanto quanto é inexperiente em traduções desse gênero de escrita) se propôs a traduzir uma obra tão extensa e complexa?

Augusto: Na realidade eu não me propus a traduzir, eu fui simplesmente traduzindo como quem não quer nada e, quando percebi que estava fazendo uma tradução, já não podia mais parar. Não foram poucas as pessoas que me aconselharam a trocar de obra, a escolher uma mais curta e menos complexa; mas aí eu já era mais um dos muitos apaixonados pela Cecilia, pela narrativa minuciosa do Cirilo, pelo seu estilo peculiar. Quando me cansava e as dificuldades pareciam insuperáveis, ouvia a voz de Isabel Ilincheta a me desafiar: - Medo, quem falou em medo? – e eu ganhava novo fôlego para continuar.
Não sabia, a princípio, das dificuldades e quando me dei conta já as tinha vencido. Por outro lado penso em pedir ao bispo para mudar a regra estabelecida de que é necessário ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro para se realizar na vida. Para mim, a experiência de traduzir foi tão gratificante que me sinto realizado, provavelmente, na mesma medida de quem escreveu um livro. E agora não paro mais. Já estou pondo fogo na Vereda Editora para lançar o livro “O Fim do Sem Fim”. Depois quero lançar um livro de fotos da minha cidade natal, e ainda um livro sobre os bares que já fecharam em BH. Projetos não me faltam; talvez até volte a traduzir...

Vereda: Michelangelo, após esculpir Moisés, teria dito: “porque não falas?” Depois de traduzir “Cecilia Valdés” quem disse alguma coisa ao outro, o engenheiro ou o tradutor? O que foi dito?

Augusto: O engenheiro disse ao tradutor: Saiba que traduzir é muito mais complicado (e prazeroso) que “engenheirar”.